segunda-feira, 24 de janeiro de 2011

Jornalista Sebastião Nery diz que Pernambuco nunca teve um Governador ladrão

O jornalista Sebastião Nery, dono de um dos melhores textos da imprensa brasileira, em entrevista ao repórter Wandeck Santiago, do “Diario de Pernambuco”, fez uma afirmação que, de certa forma, mexe com os brios dos pernambucanos.
 
Segundo ele, que conhece como a palma da mão o cenário político de todos os Estados da Federação de 1930 para cá, “Pernambuco tem um dado que Minas não tem, que a Bahia não tem, que o Rio de Janeiro não tem, que nenhum outro estado tem: você não conhece um governador de Pernambuco ladrão”.

Com a experiência de quem participa da política nacional há quase 60 anos, o jornalista e ex-deputado Sebastião Nery é sentencioso: Pernambuco possui uma característica que não se vê em nenhum outro estado - não tem governador ladrão. ´É um galardão de Pernambuco. Vocês devem se orgulhar disso`. Nery nasceu em Jaguaquara (BA), em 8 de março de 1932. Foi seminarista em Amargosa e Salvador (BA), de 1942 a 1950. Formou-se em Filosofia em Belo Horizonte (MG) e em Direito em Salvador. Carrega uma marca inédita - foi eleito em três estados: vereador em Belo Horizonte, deputado estadual na Bahia e deputado federal pelo Rio de Janeiro (pelo PDT, em 1982). Foi comunista, brizolista e apoiou Fernando Collor e participou do governo dele (como adido cultural em Roma e Paris, de 1990 a 1993). Hoje, na coluna que mantém em jornais como o Diario de Pernambuco e em outros de 20 estados do país, é um crítico sistemático do PT. Tem 16 livros publicados; o mais recente é A Nuvem- o que ficou do que passou, livro de memórias que cobre o período de 1944 a 1994. Nery falou conosco durante passagem pelo Recife.

A entrevista completa com o Jornalista Sebastião Nery na íntegra:

Qual o peso de Pernambuco na política nacional?
Não se pode fazer jornalismo político sem passar por aqui, em virtude do nível dos políticos do estado. Eu sempre digo que Pernambuco tem um dado que Minas não tem, que a Bahia não tem, que o Rio de Janeiro não tem, que nenhum estado tem: você não conhece um governador de Pernambuco ladrão. É a pura verdade. Pode pegar desde o começo do século. Etelvino [Lins, interventor em 1945 e governador de 1952 a 1955] era violento, sim, serviu à ditadura, mas era um homem corretíssimo. Podemos falar no nosso ´Pernambuco deitado`, que é o Marco Maciel, se você deitá-lo dá o mapa de Pernambuco, também um homem muito correto. Moura Cavalcanti, outro governador [1974-1978] , morreu duro. Pode pesquisar: já teve governador da Bahia ladrão, governador de Minas ladrão, governador de São Paulo ladrão, mas Pernambuco, não. Este é um galardão de Pernambuco, podem se orgulhar disso.

E em termos de liderança nacional?
O governador Eduardo Campos ganhou uma estatura nacional que desde o Miguel Arraes não se tinha em Pernambuco. É muito cedo para afirmar quem será a alternativa ao PT na Presidência da República, mas eu vejo dois nomes disputando a presidência numa certa hora: Aécio Neves e Eduardo Campos. Cada dia mais o Eduardo vai tornando-se uma liderança nacional. Mas o problema é que, como dizia, creio eu, o Nelson Rodrigues, o problema é que o Brasil é um país geográfico. Então, antes de Pernambuco tem São Paulo, Minas Gerais e Rio de Janeiro. E ainda a Bahia. Antes tinha o Rio Grande do Sul, que caiu. No geral, existe uma desconfiança nacional em relação aos paulistas porque eles só pensam neles. Veja o José Serra, um sujeito sério, grande economista, mas a cabeça dele é São Paulo. Ele acorda de manhã e não está pensando no país, tá pensando na Marta Suplicy, no Geraldo Alckmin, no Gilberto Kassab# Getúlio Vargas já dizia: imaginem se os paulistas soubessem de política o que sabem de economia. Teriam tomado conta do país a vida inteira. 

Mas no jogo de forças da política nacional,em relação a uma candidatura à Presidência, é pouco provável que o candidato seja do Nordeste, não?
O problema aí é a economia. O Nordeste é hoje 13% da economia nacional. Os estados maiores, como São Paulo, Minas e Rio de Janeiro, vão entregar a Presidência da República a um nome do Nordeste? Não tem lógica, né? Poderia ter se tivéssemos partidos fortes, capaz de quebrar essa hegemonia de São Paulo, Minas e Rio e dizer: ´Não, Eduardo Campos, de Pernambuco, é nossa alternativa nacional`.

Nessas últimas décadas, o senhor tem visto uma mudança substancial do Nordeste?
Ah, sim. O Nordeste mudou substancialmente. Sobretudo Pernambuco. E aí mais uma vez a gente tem que bater palmas para o Eduardo. Ele sentiu que era preciso aproveitar o momento, transformar Pernambuco no pólo econômico em que transformou. O Ceará cresceu também, mas o salto de Pernambuco foi maior. Se você for comparar, Pernambuco deu salto maior até que a Bahia, embora a Bahia seja um estado maior.

No seu ranking de presidentes, quem está emprimeiro lugar?
O Juscelino Kubitschek foi de longe o melhor. Era a única ´égua não-manca`, como se dizia: nunca tropeçava. O maior líder que o Brasil criou desde o Getúlio. Este ficou 20 anos no poder, teve tempo. Juscelino tinha uma cabeça com visão privilegiada sobre o Brasil. Não queria que o Brasil continuasse limitado a vender café, que era a cabeça dos paulistas. A indústria automobilística foi para São Paulo levada por Juscelino, não pelos paulistas. Ele percebeu que o Brasil não podia ficar vendendo café e boi, porque não tinha boi como o Uruguai tinha, e no comércio do café entraram outros países.

E o que pensa de Leonel Brizola? O senhor o apoiou na volta do exílio (1979) e depois rompeu com ele (1985)...
O problema do Brizola é que não era um democrata. Era um filho intelectual do Getúlio, queria ser um ditador. Ele queria chegar no governo, arranjar um general de confiança e fechar o Congresso, porque com o Congresso não dava para fazer o que ele queria. Ele mesmo me disse: ´O Congresso a gente fecha com um discurso de uma hora, se tiver 50 mil pessoas na praça. Se tiver 100 mil, basta meia hora.` Brizola foi um grande brasileiro, um nacionalista, um sujeito sério, mas queria ser um ditador. Coisas da América Latina. O Jango também pensava assim. Ele não queria ser o ditador, mas dizia: ´Não dou posse a Carlos Lacerda`. Ele não queria eleições, porque o Lacerda podia ganhar e Jango não ia dar posse a ele. Quem ganharia as eleições de 1965 seria o Juscelino, mas em tese havia a possibilidade de Lacerda ganhar.

O Brizola lhe disse textualmente que queria fechar o Congresso?...
Disse, numa viagem que fizemos para Foz do Iguaçu (PR), onde a gente ia inaugurar a sede do PDT. No avião, quando a gente se aproximava da cidade, eu disse: ´Olhe pra baixo, Brizola. Aquele verde que a gente tá vendo ou é café ou é pasto. Temos que fazer uma reforma agrária. Tem que botar povo aí`. Então ele respondeu: ´Com 20 anos a gente faz`. E eu: ´Mas Brizola, o mandato não é de 20 anos...` E ele: ´Ah, mas isso a gente dá um jeito`. Foi aí que ele disse que com 50 mil pessoas na praça bastava um discurso de uma hora para fechar o Congresso, e com 100 mil, um discurso de meia hora. Disse que bastava um general a favor para dar um golpe. ´O Getúlio fez a revolução de 30 com um general sozinho, o Góis Monteiro`. Eu perguntei: ´Mas você já tem um general para isso?` E ele: ´Claro`. Ele dizia que na América Latina ninguém fazia nada com menos de 15, 20 anos no poder. ´Por que o Borges de Medeiros é importante no Rio Grande até hoje? Porque governou 24 anos e meio`.

E as relações dele com o PT?
Ele sabia que o PT era um inimigo interno. Dizia: ´O PT vai querer herdar a herança do velho Getúlio. E a herança é nossa. Lembre-se do velho Stálin: o pior inimigo é o aliado mais próximo. Tu que estudasse em Moscou sabe disso`.

O senhor diz que algum dia vai contar que ele morreu por causa de dinheiro ...
É, mas não tem nada a ver com corrupção. Quando o Brizola morreu havia 65 mil dólares na casa dele. Aí você diz: ´O Brizola tava roubando`. Nada disso. A questão é que nesse ponto o Brizola era um conservador. Ele ia para o Uruguai, vendia as ovelhas dele e voltava para cá. Só que nesse dia ele começou a passar mal, foi no hospital, o médico disse: ´O senhor está com um começo de pneumonia. Ou se interna num hospital daqui ou pega um avião e vai para o Brasil e se trata lá`. Só que em vez de pegar um avião,ele pegou um automóvel, um motorista de confiança e veio do Uruguai com 65 mil dólares. De carro! Porque se fosse pegar um avião tinha de passar na Receita, declarar# Não estava com saúde para uma viagem dessa. Veja só; um homem daquele tamanho, morrer por causa de 65 mil dólares. E essa é que é a verdade. Um dia alguém vai contar toda essa história, talvez eu mesmo. 

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